Ela poderia voar por mais tempo, alguns segundos...
Não deixei. Agarrei-a descontrolada
com toda minha força de vontade tentei reanimá-la.
Em vão.
Dois passos no chão, ela cai de lado, dura, seca
mas, era tão leve a andorinha.



A vida começa com um beijo

Gosto deste beijo louco
com gosto de vinho e cigarro
Gosto das risadas roucas
destas crisálidas roxas
Gosto dos soluços incontroláveis das voadoras.
Gosto, só pra ver no que um dia vai dar!
Que de violência inoportuna morreu o poema.
Então, mais do que tudo é preciso amar!
Por ora, sem enganos, não resistiríamos
a falta de surpresa que um causaria ao outro.
Mais do que tudo retornar é erro.
Mas, se precisares um dia voltar,
Que seja porque algo precisa ter um fim!




A mão negra na janela da emergência
A mão que tirou do violão os melhores sons.
Afaga a tez adormecida, quem sabe, eternamente.
Do seu sofrimento fez um blues, e assim,
Deslumbrados, tentamos compreender a música.




Mendigo dos olhos de cristal

Hoje eu vi um mendigo.
Aliás, todo dia os vejo sentados nas escadarias entre a multidão.
Não se sabe se foi por escolha ou algo que deu muito errado em certo momento da vida.
Penso isso porque desconheço alguém que queira viver na rua, mas há escolhas?
Penso isso porque antes de dormir ouço os ruídos dos carros e
Imagino o desconforto de dormir no chão enquanto me aconchego na cama.
Sujeitos da noite os mendigos.
Só eles sabem o que acontece na rua enquanto todos dormem.
O mendigo dos olhos de cristal me olhou.
Seu cãozinho meteórico. Não se sabe se tinha sono, fome, pulga ou carrapato.
O homem levava sua mansão numa mão e seu cão na outra.
Que tipo de pessoas são os mendigos?
Enfeitam as árvores com chepas de cigarros e latas amassadas no Natal.
Os cristais das lágrimas do mendigo refletiram a lua.
A remela do cãozinho secava com o passar do tempo.
Os dois se encontraram, os dois beberam.
O mendigo de cristal olha a pinga e bebe devagar.
Garrafa cai, homem chora, cachorro dorme encostado no mendigo cristalizado de frio.





Minhas lágrimas não valem nada,
Meu esforço não te surpreende.
Tudo o que eu faço você repreende
Por tudo o que eu morro você acha banal.
Talvez eu não seja ninguém
Talvez eu não exista.
Já que sou um amontoado de personagens transitórios legais.
Não sei se agüento ignorar
O meu jeito, mesmo que seja inseguro viver do meu jeito.
É hoje um daqueles dias que quero sumir e esquecer-me da saudade.
O que eu posso fazer para você pensar em mim?
Ver-me como louca, e mesmo assim, me adorar.








Bate pernas na cidade de olhos desatentos
O ritmo embaçado dos transeuntes, dos carros, dos instrumentos
De tortura do comportamento acelerado da hora marcada.
Correr para chegar na hora, soar um pontual acaso.
Pessoas pisoteiam os idosos, adolescentes medonhos exibem celulares irritantes,
Gente, Fedor, Má educação, Exploração
Na província dissimulada.
Qual o propósito de tudo o que a gente vê enquanto está acordado?
O que interessa é pouco comparando a idéia alentadora que eu faço do sentimento
Ininterrupto dos nossos encontros eventuais, ligeiros e intensos da palavra suspensão.