VINHO BARATO

Até pouco tempo atrás, meus amigos e eu costumávamos ir ao Chaplin, um barzinho bem no centro da cidade. O dono era uma figura, parecia o Leôncio do pica-pau e vivia dormindo em pé! Então era o Serginho, o Cledison e eu, sentávamos nas cadeiras de palha pra conversar sobre várias coisas e de vez em quando a gente fazia uns exercícios com as palavras. Nesta época, em 2000 por aí, o Chaplin já estava decadente, na verdade eu nem vivenciei os tempos áureos do Bar, mas era um bom lugar pra se beber, sossegado. Depois da sessão de cinema no Antarctica íamos pra lá, e lembro uma vez que conhecemos um cara francês. Foi muito engraçado, pois nos entendemos logo de cara e cada um falando a sua língua. Chamava-se Benoit (eu acho) e estava de passagem, então resolvemos mostrar os submundos de Joinville pra ele. Na primeira noite apenas caminhamos pelas ruas, conversando e tal. Na segunda, levamos o cara no Chaplin. Conversa vai, conversa vem optamos pelo vinho. Quando o cara viu o garçom trazer copos de plástico com gelo e limão, vinho tinto suave (Campo Largo, que nem o Lima Duarte tem o poder de convencimento) ele ficou pasmo. Poxa, para quem tinha uma adega em casa e na França, aquilo foi uma infâmia! Enfim, bebemos dentro da nossa normalidade e saíram estas frases:

"Os gênios da globalização compõem estrondos cinzentos,
almejam, sem mais tardar, imporem-se,
mergulho no óleo, e sou como água na Guerra Atônita"

obs.: mas pensando bem, Campo Largo e derivados é ruim pra caralho, só em últimos casos mesmo!



BISCOITO

Existe uma técnica para comer biscoito, principalmente em lugares onde qualquer farelo caído vira problema: no quarto, no ônibus de viagem, biblioteca, locais proibidos e onde mais for que corra o risco de atrair formigas ou comprometer a higiene coletiva. Então para facilitar a minha vida, pois adoro comer biscoito, tanto doce quanto salgado, fui obrigada a desenvolver esta técnica. De repente os mais cautelosos com esse tipo de situação já tenham se preocupado com isso e desenvolvido a própria maneira, então não será muita novidade. Guardem a informação os mais desleixados. A preocupação já começa ao abrir o pacote.

1º - Use o lacre, que atualmente qualquer embalagem traz.

2º - Abra lentamente para que as bolachas na ponta não quebrem ou caiam no chão, evitando o esfacelamento e também não perde nenhuma.

3º - Se você estiver com muita fome coloque a bolacha inteira na boca, é simples, comece enfiando pelos cantos.

4º - Agora, se quiser ser mais delicado coloque metade ou o pedaço desejado dentro da boca e com a ajuda da língua quebre o biscoito preocupando-se em molhar a parte que ficou de fora.

5º - Detalhe importante: para quem está comendo parece tudo normal, mas para quem ver você fazendo isso poderá achar meio esquisito, faz parte.

6º - Locais proibidos: é melhor colocar a bolacha inteira na boca e mastigar disfarçadamente, continue sua tarefa como se nada estivesse acontecendo. Às vezes fica um pouco de farelo na blusa, perto do queixo, não mexa, levante-se normalmente para que o farelo caia bem espalhado no chão, aí já não há mais nada a fazer, pois foi um fracasso em todas as etapas.

Fácil, não? Agora é possível comer biscoito sem medo de levar bronca da mãe ou deixar imundos os lugares por onde passa.





Amor e Crueldade

Quero saber se você sente saudades, como sente a solidão.
Quero saber da sua dor, do seu medo de perder e ganhar...
Quero saber se faço diferença na sua vida.
Ouço qualquer coisa até o telefone tocar.
É nesse espírito que quero te ver.
É com o mesmo sentimento que vamos nos encontrar.
E ao perceber o teu desespero, eu quero te amar, mais e mais.
É como planejamos ficar, juntos até o infinito.





Ditos e inauditos infantis


Os risos das quintas sempre foram um incômodo pra minha tia. Minha tia, esposa do irmão do meu avô - meu namorado não acredita nesses graus de parentesco, mas pra mim o que vale é a convivência - era uma destas pessoas com as quais convivi durante uma fase da infância que eu posso chamar de fase inventiva. Eu tinha grandes idéias, os pais geralmente não gostavam muito. Poderia ter-me desenvolvido uma cientista, mas os padrões comuns de comportamento feminino de uma classe abaixo da média na época não permitiam, e isso nos anos 90! De qualquer maneira, sempre ri muito na quinta-feira, acho que desde criança foi um dia da semana bom, nem tanto pela chegada do final da semana, pois nesta época no máximo o que eu fazia era ir pra escola e brincar, mas sempre fui mais feliz nas quintas do que qualquer outro dia da semana. As razões? Sei lá, devo ter nascido numa quinta-feira. Mas, quando eu chegava à casa dos meus primos - de terceiro grau decerto - eu sempre estava muito empolgada. Eles topavam minhas idéias e juntavam as deles, é claro, e tudo parecia novo, mas não um novo como o de hoje, neste contexto global e idade da vida pós-pós-adolescente moderna massificada e consumista, mas algo de original, de fantasia e segredos autônomos. Como reinventar o ventilador, cultivar uma sociedade de insetos articulando suas sociabilidades, exterminar lagartas, desenvolver tecnologias de comunicação noturna telepáticas, criar atalhos no mato, desmontar máquinas e remontá-las de outra forma, criar alfabetos, símbolos... Era tão bom, por isso eu ria, mesmo quando era proibido. Não só na quinta-feira, mas sempre que este entusiasmo de inventar coisas, minúsculas e significativas para a ciência infantil surgia. Então, sempre que percebo minha alegria das quintas, lembro da frase dela: “Quem ri muito na quinta, na sexta chora”. Nunca entendi, mas sempre que estou muito feliz na quinta-feira, aguardo a sexta-feira com receio de que algo ruim pode acontecer.




O corpo na forma do espelho
Girando como uma galinha de boteco no domingo
Nádegas quadrada, coluna um pouco curva...
Sedentária?
Cem células falidas!
A beautiful woman.





Empresta-me tua prosa
tuas ninfas enforcadas
tuas mãos afinadas
permita-me livrar
desse embolorado código padrão






Ela poderia voar por mais tempo, alguns segundos...
Não deixei. Agarrei-a descontrolada
com toda minha força de vontade tentei reanimá-la.
Em vão.
Dois passos no chão, ela cai de lado, dura, seca
mas, era tão leve a andorinha.



A vida começa com um beijo

Gosto deste beijo louco
com gosto de vinho e cigarro
Gosto das risadas roucas
destas crisálidas roxas
Gosto dos soluços incontroláveis das voadoras.
Gosto, só pra ver no que um dia vai dar!
Que de violência inoportuna morreu o poema.
Então, mais do que tudo é preciso amar!
Por ora, sem enganos, não resistiríamos
a falta de surpresa que um causaria ao outro.
Mais do que tudo retornar é erro.
Mas, se precisares um dia voltar,
Que seja porque algo precisa ter um fim!




A mão negra na janela da emergência
A mão que tirou do violão os melhores sons.
Afaga a tez adormecida, quem sabe, eternamente.
Do seu sofrimento fez um blues, e assim,
Deslumbrados, tentamos compreender a música.




Mendigo dos olhos de cristal

Hoje eu vi um mendigo.
Aliás, todo dia os vejo sentados nas escadarias entre a multidão.
Não se sabe se foi por escolha ou algo que deu muito errado em certo momento da vida.
Penso isso porque desconheço alguém que queira viver na rua, mas há escolhas?
Penso isso porque antes de dormir ouço os ruídos dos carros e
Imagino o desconforto de dormir no chão enquanto me aconchego na cama.
Sujeitos da noite os mendigos.
Só eles sabem o que acontece na rua enquanto todos dormem.
O mendigo dos olhos de cristal me olhou.
Seu cãozinho meteórico. Não se sabe se tinha sono, fome, pulga ou carrapato.
O homem levava sua mansão numa mão e seu cão na outra.
Que tipo de pessoas são os mendigos?
Enfeitam as árvores com chepas de cigarros e latas amassadas no Natal.
Os cristais das lágrimas do mendigo refletiram a lua.
A remela do cãozinho secava com o passar do tempo.
Os dois se encontraram, os dois beberam.
O mendigo de cristal olha a pinga e bebe devagar.
Garrafa cai, homem chora, cachorro dorme encostado no mendigo cristalizado de frio.





Minhas lágrimas não valem nada,
Meu esforço não te surpreende.
Tudo o que eu faço você repreende
Por tudo o que eu morro você acha banal.
Talvez eu não seja ninguém
Talvez eu não exista.
Já que sou um amontoado de personagens transitórios legais.
Não sei se agüento ignorar
O meu jeito, mesmo que seja inseguro viver do meu jeito.
É hoje um daqueles dias que quero sumir e esquecer-me da saudade.
O que eu posso fazer para você pensar em mim?
Ver-me como louca, e mesmo assim, me adorar.








Bate pernas na cidade de olhos desatentos
O ritmo embaçado dos transeuntes, dos carros, dos instrumentos
De tortura do comportamento acelerado da hora marcada.
Correr para chegar na hora, soar um pontual acaso.
Pessoas pisoteiam os idosos, adolescentes medonhos exibem celulares irritantes,
Gente, Fedor, Má educação, Exploração
Na província dissimulada.
Qual o propósito de tudo o que a gente vê enquanto está acordado?
O que interessa é pouco comparando a idéia alentadora que eu faço do sentimento
Ininterrupto dos nossos encontros eventuais, ligeiros e intensos da palavra suspensão.



o táxi afundou na lama, suave como tropeçar na merda.

[autoria: ariane + cledison + serginho]



MM

Pouco medo nós sentimos
Dos espíritos da guerra.
Do invisível.
Pouco medo nos resta do horror.
Tememos pouco os filmes de terror.
Que é o medo da morte?
Queremos mais,
A prova do controle do medo.
Amnésia
Banalização
Descrença
Certeza.



Coquetel

Induzida pela faina,
Pela ascensão.
Induzida pelo hábito,
Pela razão.
Induzida pela certeza indiferente.
Esconde o corpo
Ameniza a ação
Viola a alma.
Que veneremos este tempo que nos constroe!
Quer seja ele quem nos reduz.
É tão fácil ter o domínio e tão difícil o intenso de si.




Expressionada

Já pensaram como seria se vivêssemos embriagados?
Surpresa a cada milímetro ato!
Porém, também, não sei se seria bom
Mas, é engraçado pensar.
Um animal, um olhar, uma música então!
Portas que se abrem.
Seríamos o excesso
Seríamos o nexo
Seríamos puros sexo!
Dançaríamos, riríamos e choraríamos.
Daríamos porrada, socos e pontapés.
Pelo menos eu, aprenderia a brigar.
E quem julgaria se fossemos todos bêbados?
Quem iria dirigir?
Digam-me, o que mais não se pode fazer quando está embriagado?
Ou melhor, quanta coisa a gente se permite fazer?
Declarar-se. Isso é importante. O amor que emana do bêbado
É tão belo quanto o amor sacrificado dos beatos.
Sem risos.
É o amor expansivo, devasso, humano.
Meu amigo. Gênios, artistas, as pessoas legais são bêbadas.
É embriagado que somos frutíferos.
Seríamos punidos por isso?





De ti gosto eu
É quando minhas geleiras derretem
Transbordando as lágrimas pela bochecha





Me entrego a um dilema sem tema, onde a rima me azucrina, como faço jus ao que satura é a noite a única que me atura, então digo logo o que tenho a dizer. Os pés frios endurecidos enraízam-se no chinelo, constatação após constatação, ruídos fabricados. Uma informação a pouco liberada, correu tresloucada em busca de fundamento, colidiu. Enfim, tudo planejado, resta-me desperdiçar palavras e zelar o tesão. Nada é agradável em si.





O Eleito

Joaquim Salvador dos Passos quase não sorria,
nada falava, quase não cuspia.
Joaquim fez o que seus pais sonharam,
fez o que o mundo melodiava, mas ele
não fez o que queria.
Este homem perdeu-se de si, este homem vai
revirar o mundo.
Grogue, trabalhador, pontual.
Joaquim é ansioso. Candidatou-se a Deputado Estadual.



Mata Mama

Te amo crua
Valente
Dos pés a cabeça, amo.
Essa nudez durante
horas da noite.
Escorrendo a faca repentina.
Duvida a mama pois,
Ama morna.
Móvel cigana
Mata Nua.
Mata Hari.
Mata Mama.



LOLA

Lola a Bela.
Lola acorda, caminha.
Lola ama?
Lola chora,
chora quando vê maus-
tratos e injustiça.
Lola não é perfeita, parece uma
bexiga, qualquer espetada vai estourada.
Lola tem jeito?
Não gosta de madame mas gosta de respeito.
Lola agora tem alguém que a chama de lolita,
por ele daria a vida, a morte e a sobrevivência.
Lola tem sonhos impossíveis,
histórias mirabolantes.
Lola agora quer ter mais amigos,
continuar este amor juvenil.
Lola se despede em lágrimas termais.
Continuar?
Lola continuará.




HOJE

Não me sinto uma ave,
nem uma deusa ou
tenho o peito inflado.
Não me sinto, a diferença
adequada.
Sei do meu aperto na garganta,
a ira inviolada.
Pela vida frágil que
insiste,
sinto o cuidado.
sinto a seta.
Sou salva-vidas,
não da minha.





Navio navalha na água






Caí como uma rã no escuro do quarto mundo, muda.




Ria minha boca de serpente
Enredada em braços anônimos
legada espiã das almas



Água
que lava
Leva medo
Modifica
Água
que afoga




Cores tangentes, tons escarlates, vai de vinho, encontrar quem eu gosto PRA CARAMBA, rir, indignar-se de madrugada por motivos efêmeros.
E só quando o sol já estiver a um quarto depois do horizonte, caminhar talvez para casa, talvez para outro bar ou caminhar até que o tempo se desenrole então nos separamos sem perceber, para que eu consiga dormir e ele também.




Canção ao vento

Meu amásio vento, és verás e estás sempre atento.
Semelhante a formosia de quem, energicamente o deseja,
aflijo por motivos que só fazem enlouquecer.
É sarcasmo. Por isso vento, não queira ventar
ao passo em que achama tostar.
No meu ventre existe somente a flor prazerosa
A influência é a acumulação dos desejos,
absorção do destino.
Fantasiarei algo que muito o estima,
Ah vento, por que não me deste estas intenções,
preenchendo o que faltaria nos melhores momentos,
preenchendo com alegria, pássaros
arte e brilho, mas é a solidão quem guia os delírios.




A planta assexuada é sempre
uma lisura
Compulsiva nunca

*poema coletivo por Ariane, Cledison e Serginho.





feita com prazer
digna de abraços
agora isolada
Inerte
no escuro uma voz
desmanchando pedidos
perdidos na fé
coro porque existo só





Ornamentei o chão com
pétalas
Caminhei
sobre elas até a cama
Dormi sentindo o perfume
Róseo.
Parca vontade
saber
do amor cego
e ter-me
Sólida
na captura do eu.







O que sucede

Acabou-se o mistério
A cor da
corda no pescoço
desbota como
aço na orla, enferruja.
Acordes se
fragmentam de mim
O que sou ressoa,
Onde não estou ecoa.
Cabeça, tronco voando,
Perdôo os desmembros.
De promessas e proezas estou vivendo
Apunhalando cumprimentos das leis fatídicas...
Eu toda azul,
Os vermes,
E eu:
Vazia e transparente,
Plástico sensível.




Saliva no ar
estica
a fuga



Faço-me doce
férrea
Faço-me ônix
abrigo vidas
Faço-me doida
vistosa
Faço-me amada
coisa da terra.




POEMA CUBÍCULO

Pensei em dizer a verdade, mas vou mentir. Verdade é densa e perigosa. Mentira leve e amigável. Vaza pelo seu caminho indefinido definindo-o. O que interessa agora são os extremos. Nada de meio-termo. Oceano, para quem sabe navegar...
O suor liquida a poeira da estrada sob a pele e os carros passam, cheios de personagens apagados e também algumas crianças curiosas, como um dia na vida fomos.
Dedo erguido. Um carro azul metálico pára.
Está o sol entusiasmado. Estão os pássaros voando tontos, operários, boêmios, caminhoneiros, o movimento, a vida, sem metafísica, a vida batida , a vida repetida, a vida nova, está a alegria de toda a vida.
Viajar é para quem quer e não para quem pode.
Percorrendo indagações. O carro turbinado furava o espaço como se fosse o dono de tudo, do ar. Como tu te chamas? Pra onde vais? Qual tua nacionalidade? Queres saber quem eu sou, e para onde vou, não?
O carro veloz não tinha voz. Nem o dono ouvidos. Por que tanta solidariedade então?
Suas mãos eram grandes, dono de uns braços magros de ossos salientes, cadavérico. Às vezes segurava o volante com uma mão e a outra atravessava para fora da janela submetendo-a à pressão do vento.
Estamos no século XXI, carros conversíveis são comuns, abriu o dele. Automóvel leve, voava. Tinha um rádio super atual, DVD, nem sei explicar, muitas coisas, como nunca vi. Potente. Moderno. Último modelo. Zero.
Cheguei, obrigada gentleman!
Adeeeeeus. Vruum! Mãos abanam, abandonam-se, agradecidas.
Embriagados de si, saíram cantando, bebendo água da chuva, comendo coisas cruas, dormindo cobertos de estrelas, serenos e inacreditáveis. Seres elementares. Embrionários.
Mentira tem perna curta quando somos coerentes, mas se deixar ela persuade os dias reais chatos assim como este, sem gripe só embroma da imaginação. Bah!





Extreme Day

Uns minutos para abrir a porta
Deixar o vento entrar, circular e sair
Ir a outros lugares.
Uns minutos também de sufoco.
Agarro-me com os olhos no espelho
na rua, nos olhos alheios,
o som denso do dia me separa,
abandono risos e prantos meus e dos outros.
Sem questões não existo,
Tampouco lembro o que queria perguntar...
Cada cabeça roda um moinho que surpreende a incompreensão das coisas!







Poema para mais uma noite

Mordes os lábios
Percebes,
o sol enfraquecendo,
as nuvens num batalhão
e tu já tens os cabelos brancos.
Lave o rosto, as mãos.
Tua voz, teu espírito
acendem roucos
as lembranças
das noites boas.




INFLA
AMÁVEL
VÉU




Noctívagos

Alta porcentagem alcoólica
uma mágica moderna?
Admiram-se as
bocas
ocas e acústicas
Alívio sonoro secular
das tantas palavras
Atravessaram meus domínios.
Ora tão mágico,
ora tão trágico.
Fato ligeiro.
O que ocorreu sob o céu
da nova?
Ideal atingido.




Formosa Azaléia

Numerosas faíscas no espaço
Abrigo de átomos disponíveis.
Indiscretos rebentos
para secretos talentos.
No jardim os teus passos e
no quarto minha pulsação.
Prefiro não olhar mais
num momento sem movimento
ouço-o entrar.
Tem o rosto rosado
meios que são ondas sopradas
contra o ventre
Envolvente coragem aceitar a flor.





Revisão de duas faces incontidas

Entrecortadas na sombra como no arfar
da voz querida
Autênticas cútis sob o luar.
Dos passos na areia a trilha irregular
Por vezes larga, estreita
Mas incógnita.
Se nem nadar é como quero
Nego meu lar, nego a luz.
Elevo-me inquieta, contrária à cruz!
Nesta visão aérea,
qual sentido está a bel-prazer?
Meia vida fluída, outra dose gerada.




Têmpora

Reconfortada na penumbra
Entre quatro paredes
Medito.
Decido um rumo.
Mas muitas vezes, ando
na corda bamba,
provo incertezas
então me sacio.





Odeio o amor mas não amo o ódio.




Verso em aversão
Converso
Avessa
Com os dedos das mãos
Me despeço
No verso



Adrenalina

Para dizer que já vôou
pulou
Para parecer triste
cortou
Para dizer não
escondeu
Para dizer que naufragou
mergulhou
Para fingir
alegrou




Precisas preces

Não és o único a suspirar louvores a Deus
Nem a gritar:
O que foi que aconteceu!
O show inicia!
Aurora traz alegria!
Vamos dançar esta canção?





Hoje eu não te vi, e o dia acabou assim:
sem graça,
sem ritmo,
sem título.
O dia acabou e eu não o percebi!
Partilharam em silêncio
Meu grito baixinho,
Meu escândalo solitário.
Vou lembrar de hoje, como
Os dias em que não te conhecia





O cão procura o dono
O dono procura o cão
O cão observa o dono
O dono não enxerga o cão





Ampulheta

Olhando para quem fica que olha para quem passa,
Recomeço rasgando o passado para aliviar os passos.
Passado que não passa, futuro que não chega.
Fui dormir e o computador ligou sozinho,
Mouse e imagens moviam-se na escuridão da sala.
Entrei em silêncio,
nessa noite fui fantasma do fantasma.
Outra noite ele jogou água fria na minha testa
No peito, impedindo-me de romper seu celibato.
O que acontece comigo acontece a você
Peregrinação dos ovários.
Há também dejetos mentais a serem analisados,
sou uma pessoa curvada pela cultura
me perdoe a deselegância.
Mamãe! Meu lado grosseiro expandiu!
Sou macaco, homem das cavernas,
Materialista e imbecil!
Acordo
Recordo e
discordo continuar meus sonhos
descontados da realidade.




Em defesa da noite

Os dias encerram-se numa clareza e exatidão...
A noite propicia.
Criaturas rebelam-se em novas linguagens capazes de ascensão, encontram-se em tramas corpóreas rítmicas, associam energia, infinidade e curiosidades epiderme-existencial.
Pode ser que dominem o sono.
Pode ser que se entreguem, embora sejam companheiras de soslaio da elucidação.
Pode ser que compenetradas em suas alucinações anteparem-se.
Falta aos seus ouvidos declamar palavras de ouro
Diluir perfumes que estão na imaginação, fazer reverberar seus sentidos.
Devolver a noite sua persona, sinalizando a inconsequência do predador que teme a manhã.